segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

''Foi apenas um sonho''( ''Revolutionary Road'')

Confesso não ter o menor interesse nas especulações sobre o Oscar. Passo batido pelas transmissões anuais desta festa e, além disto, jamais escolhi assistir qualquer filme por estar ''cotado ao Oscar'' ou porque ''recebeu n premiações na noite do Oscar''...Relembrar as peripécias do casal de ''Titanic''- e da música ''chorosa'' de fundo- ainda é capaz de revirar as minhas entranhas...No entanto, sou obrigado a ''dar a mão à palmatória'' no caso deste excelente filme do diretor Sam Mendes, ''Foi apenas um sonho''. Em meio a uma das maiores crises econômicas de todos os tempos ele foi capaz de nos proporcionar uma obra de arte que, como é típico das melhores obras de arte, é puro aspecto ''subjetivo''( o psicológico defrontando-se uma vez mais com os ''idiotas da objetividade''- expressão do saudoso escritor brasileiro Nélson Rodrigues). O diretor de ''Beleza Americana'' mostra uma vez mais os bastidores de uma ''feliz'' família de classe média dos subúrbios norte-americanos. A época é 1955. O marido, pai de duas belas crianças, tem um emprego- que detesta. O casamento está por um fio, enquanto ele se dedica a casos extra-conjugais com secretárias do serviço. Eis que a esposa, saudosa do homem ''sonhador'' e ''idealista'' com quem se casara, tem uma idéia: mudar para Paris- onde se oferece inclusive para arranjar um emprego como secretária para ''bancar os sonhos dele''- com o intuito de salvar a relação dos dois. O casal Wheeler, como tantos casais de classe média, se julga ''especial''. Mergulhados na rotina e no tédio, acham que estão acima de tudo isto. Como todos os viciados em alguma coisa, acham que ''podem largar o vício a qualquer instante''...Antes um parêntese: tanto indivíduos quanto casais tem uma auto-imagem. Até mesmo mergulhados nas maiores adversidades, normalmente continuamos achando que somos capazes de superar todos os limites para, enfim, podermos levar a '' vida de nossos sonhos''...Os indivíduos que perdem a capacidade de sonhar, assim como os casais que perdem a capacidade de elaborar planos grandiosos, estão mortos e não sabem...A proposta de largar tudo e mudar para Paris, feita por April Wheeler, sacode as estruturas da rotina do casal, e perturba todos ao redor( seus amigos, vizinhos, colegas de trabalho). Uma das mais marcantes cenas do filme mostra centenas de indivíduos do sexo masculino, com ternos pretos ou cinza, descendo de um trem com destino ao trabalho. Há pouquíssimas mulheres no serviço, geralmente em papéis subalternos e secundários. Os empregos são desgastantes, mas ao menos proporcionam aos que se submetem a eles condições materiais confortáveis: e o homem é o ''provedor'' da família...É justamente neste contexto que April Wheeler( magistralmente interpretada por Kate Winslet)decide ''inverter os papéis'' e se oferecer para sustentar o marido, em um país distante, e ''bancar os seus sonhos''. Todos os demais- salvo um divertido personagem ''louco'', o mais lúcido entre eles- ficam incomodados com aqueles planos grandiosos. Afinal, ao redor dos Wheeler, os demais parecem já ter se acomodado à rotina. Os Wheeler parecem ''juvenis'' frente a todos os demais ''adultos'' conformados à mediocridade de seus empregos, família, etc. April Wheeler simplesmente propõe ''romper o pacto'', o ''status quo'' que os outros haviam estabelecido. Seu erro, grande erro, é desconhecer o caráter do próprio marido Frank( Leonardo Di Caprio). Frank a conquistara graças ao charme pessoal e ao discurso grandioso. Mas, àquela altura, Frank Wheeler já não tem mais sonhos a cultivar. Está acomodado à rotina, ao emprego medíocre, aos conhecidos igualmente acomodados. Enquanto Frank inicialmente reluta, para depois aderir plenamente aos sonhos da mulher- garantindo aos dois alguns meses de puro idílio e da mais perfeita paz e união- tudo parece perfeito. Porém, um despretensioso relatório que elaborara no emprego lhe garante o apreço dos chefes e uma proposta de crescimento na firma e um maior salário. Frank Wheeler agora tem muito a ''perder'' ao aderir aos planos da esposa. E mostra todo o seu caráter dúbio: consegue dizer, simultaneamente, sim aos planos feitos pelos dois bem como ao assédio do chefe, que propõe lhe dar um cargo melhor. Frank mentalmente já se acomodara, e os planos de April de bancar a realização de seus vagos sonhos da juventude começam a incomodá-lo. Frank, como todas as pessoas fracas, quer tudo: manter, ao mesmo tempo, o emprego ''de fachada'' com um bom salário e a casa confortável no subúrbio, assim como o amor de sua mulher. Por querer tudo, a ''não escolha'' de Frank acaba pondo tudo a perder... Perde o amor e o respeito da própria mulher que, neste momento, mostra-se como uma verdadeira ''fera enjaulada''. Fica melancólica, olha para fora com desejo de fugir daquela prisão em que se enredara, bebe, briga com o marido. Embora vista saias, é ela- psicologicamente- o lado mais forte da relação...Não contaremos mais da estória para não tirar a surpresa, mas a decepção de April Wheeler com a ''traição'' do marido( o abandono dos planos) é o grande momento, o melhor momento deste filme excepcional. O degustamos como a um prato delicioso e inesquecível. O silêncio- raro- da platéia em um cinema lotado é revelador. Quantos ali não se identificaram com algum dos personagens? Quantos ali não constataram que, como indivíduos ou como casais, haviam abandonado os seus sonhos há muito tempo, vivendo cômodas existências de silencioso desespero? O filme ''coloca o dedo na ferida de todos nós''. Afinal, por mais que nos escondamos por trás do que fazemos para ganhar a vida, do que temos/possuímos, excepcionalmente encontramos um espelho pela frente para nos lembrar o que somos. ''Foi apenas um sonho''( o título soa ainda mais irônico em inglês: Revolutionary Road...)é um belo espelho no qual, além de todas as desventurais atuais no plano material, enxergamos várias de nossas ''misérias existenciais'' que nem o passar do tempo consegue apagar...Alcnol.

Final do passeio pela Vila Madalena: nova filial do ''Melhor Bolo de Chocolate do Mundo''...

Para finalizar este passeio pela Vila Madalena, e recuperar as forças, decido conhecer a mais recente filial da rede portuguesa ''Melhor Bolo de Chocolate do Mundo''. Já mostramos aqui neste blog a primeira loja no Brasil, localizada na Rua Oscar Freire. Depois, uma loja inaugurada no final de 2008, em Higienópolis, região da Praça Vilaboim. Após o que, em uma de minhas múltiplas andanças, descobri a mais recente filial da rede, na Vila Madalena- esquina das Ruas Girassol e Aspicuelta. Ampla, com um jardim interno, não faz feio se comparada às demais. O bolo deles, rememorando, não leva farinha, e é feito com o mais puro chocolate belga...Minha escolha do dia é o de chocolate ''meio amargo''( mais saudável, e com cerca de 70% de cacau), acompanhado de uma água mineral com gás. No início o ''carro-chefe'' da rede lusitana era o bolo de chocolate. Agora, eles já introduziram algumas novidades salgadas, como empadinha de queijo coalho e sanduíches. Para quem não conhece a estória, o dono desta rede começou com um restaurante. Porém, acabou descobrindo que vários de seus fregueses ''almoçavam apenas para poderem comer a sensacional sobremesa''( o bolo de chocolate). Aí fechou o restaurante e se dedicou ao comércio dos marcantes doces...Quem sabe eles não acabam fazendo,no Brasil, o caminho reverso, transformando-se- ao final- em um restaurante? Ironias do destino...

Vista- digo- Vila Madalena...

No post anterior, abaixo, mostramos o caminho que percorremos até chegar a um lugar com vista privilegiada na Vila Madalena. Á frente, apenas um prédio e muitas, muitas árvores...Nem parece que estamos na ''poluída'', ''cinzenta'' cidade de São Paulo. Afinal, eis a maior lição que aprendemos quando vivemos aqui: São Paulo não ''é'' nada. São Paulo ''são'' muitas coisas. É a bucólica Vila Madalena, é o arborizado bairro de Higienópolis, é o luxuoso Shopping Cidade Jardim- na beira da Marginal Pinheiros- ao lado de uma favela, é a quase sempre engarrafada Avenida 23 de Maio, é Santana, é Pinheiros( breve mostraremos alguns posts referentes a esta região...), é o bairro dos Jardins, é a Rodoviária do Tietê, é a Praça da Sé...A ninguém é dado afirmar que ''conhece'' a cidade de São Paulo, justamente por suas múltiplas e infinitas facetas. São Paulo não é ''o'' mundo, claro, mas é ''um'' mundo em si própria, ''mundo'' este que estamos a descobrir e a revelar um pouco mais a cada dia. Afinal, não sou eu que ''blogo'' em São Paulo. É São Paulo que ''bloga'' por meu intermédio...As fotos que ilustram este post mostram o destino de todo este passeio pela Vila Madalena: a vista do horizonte, de uma São Paulo mais verde, de um dos ''pulmões'' da cidade de São Paulo...

Passeio pela Vila Madalena, em São Paulo...

A Vila Madalena, na cidade de São Paulo, tem um ritmo diferente do restante da gigantesca metrópole. Muitas casas, ruas arborizadas, uma cara de cidade do interior. A Vila tranquila de dia convive com os bares agitados da noite, mas aí já é outra estória...As ruas da Vila Madalena, fazendo jus ao seu ar de lugar ''exótico'' e repleto de estabelecimentos ''alternativos''( restaurantes vegetarianos, livrarias, terapeutas, cursos de Yoga, etc.), recebem nomes diferentes como ''Purpurina'', ''Girassol'', entre outras...Mesmo passando inúmeras vezes pela Vila Madalena, sempre é tempo de descobrir algum caminho novo. Outro dia- infelizmente da primeira vez de baixo para cima...- descobri uma ladeira enorme, repleta de degraus e muros pintados ao redor. Vamos descê-la? O que haverá lá embaixo? O nome da ladeira/travessa é bem significativo: Tim Maia...No ''meio do caminho'', no cruzamento da travessa ''Tim Maia'' com a Rua ''Girassol'' deparemos com uma área verde elevada- vide fotos- de onde podemos constatar que ainda podemos descer mais um pouco...Imaginem o caminho reverso, que já havia feito, de subida...Vamos continuar descendo? Nos muros, pequenas obras-primas. Numa delas, hilária, o pedido: ''Deus, me dê dinheiro''...Retrato da crise econômica...Tenho certeza de que vários pastores não tem ''vergonha'' de fazer pedidos tão ''práticos'' e diretos...Lá ''embaixo''( primeiras 3 fotos de cima para baixo...)uma vista incomum de uma São Paulo verde e quase sem prédios: privilégio dos moradores desta região da Vila Madalena...

Fechando o último dia de sábado, à procura da ''praça do pôr-do-sol''...

Já tinha ouvido falar de uma tal de ''praça do pôr-do-sol'' na região do bairro Alto de Pinheiros. Uma vez que tanto o Shopping Villa-Lobos quanto o Parque de mesmo nome estão situados nesta área, decidi esticar um pouco mais a minha caminhada para tentar achar a tal praça...Primeiro, mais 3 quilômetros para sair do shopping e contornar o Parque Villa-Lobos inteiro- passando por uma agitada Marginal Pinheiros- até chegar a uma outra entrada( ''convenientemente'' distante do Shopping...). Conheci a outra parte do Parque que ainda não havia visto- e que provavelmente não reverei por um bom tempo...- e me dirigi até a saída, rumo ao restante do bairro Alto de Pinheiros. Após perguntar a umas 5 pessoas na rua- nenhuma tinha a menor idéia da existência da tal praça- e andar por cerca de 3/4 quilômetros no labiríntico bairro( a esta altura implorando pela aparição de um ônibus, táxi, qualquer meio de transporte que me tirasse dali)repleto de inúmeras casas, condomínios, mansões, em meio a uma cerrada vegetação que dava a impressão de que já era quase noite, consegui- quase por ''acaso'', pois a intenção já era rumar em direção à Vila Madalena- enfim chegar à ''Praça do Pôr-do-Sol''...Ela, quem diria, existe de fato- não é mais uma ''lenda urbana''...Apenas um pequeno detalhe: como era perto de 20 horas, o sol já havia se posto...! Não perdi a pose: afinal, após quase duas horas de procura, era preciso mostrar alguma coisa. A Praça- para minha surpresa, que não imaginava haver tantas pessoas em São Paulo que ''curtiam'' a natureza e eram capazes de apreciar o final de um dia- estava tomada por inúmeros casais, famílias inteiras, grupos de jovens, pessoas sentadas em posição de Yoga, ''hippies'' ou ''pós-hippies'', etc. O pôr-do-sol é um espetáculo. Ver tantas pessoas interessadas nele- em São Paulo- é mais um espetáculo...Afinal, o Rio é que tem a fama de ter coisas ''extravagantes'' assim. É em Ipanema que as pessoas costumam aplaudir o pôr-do-sol nas areias da praia, porque é- de fato- um espetáculo memorável e inesquecível...Faço uma promessa aqui para mim mesmo e para virtuais interessados nestes textos: ainda voltarei a esta ''Praça do Pôr-do-Sol'' para registrar um belíssimo sol poente...Afinal, em uma cidade repleta de edifícios gigantescos, são poucos os lugares- como esta Praça do Alto de Pinheiros- onde podemos contemplar um horizonte aberto, limpo, com muito verde, e com uma gigantesca bola iluminada baixando ao longe no final do dia...Quem vê os paulistanos no cotidiano- sisudos, ''protegidos'' em seus automóveis ou prédios cheios de grades e muros, concentrados em seus negócios ou planos profissionais- jamais poderia imaginar que vários deles( de nós, afinal sou um paulistano recém-convertido)iriam ''perder'' preciosos minutos de seu tempo para fazer algo visto geralmente como ''inútil'', ''não-lucrativo'', como esta contemplação coletiva de ''apenas'' mais um pôr-do-sol...Alcnol. Nas fotos a Praça do Pôr-do-Sol e os condomínios e ruas desertas do bairro do Alto de Pinheiros, que eu tive de percorrer quase por inteiro para poder chegar à Praça...Na penúltima foto( de cima para baixo), as grades do Parque Villa-Lobos, vistas da região da Marginal Pinheiros. Mais 3 KM de caminhada até a próxima entrada...