quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Tarefa maior- construir a si mesmo

Como vivemos em um mundo de ''fazedores'', em uma cidade de ''fazedores'', é normal que, em um primeiro contato, as pessoas perguntem ''o que você faz''. Isto é suficiente, PARA ELAS. Porém, o personagem principal de ''Na natureza selvagem'' caracterizava-se por uma outra busca: a busca de si. Fazer algo, neste mundo, é trivial: praticamente todos tem de fazê-lo, sob pena de morrerem de fome. ''Quem não trabalha não come'' é a lei implícita deste planeta. Mas estamos aqui não apenas para ''ganhar a vida'' e encher os nossos estômagos. Aliás, animais não morrem de fome e nem ficam desempregados. Porém, não os vemos realizando algo próximo ao nosso ''tripalium'' ( nome de um antigo instrumento de tortura...). E é nesta pequena transição de fazer algo para descobrir algo maior sobre si mesmo que as coisas empacam. É fácil esconder-se sob uma identidade qualquer- como ''professor'', ''médico'', ''advogado''- compartilhada por milhões. Mas há algo mais, algo que temos de especial, único. E deveria ser o principal objeto de nossas buscas nesta vida tão curta. O personagem do filme já mencionado viveu pouco. Porém, neste pouco que viveu praticamente não fez outra coisa senão buscar conhecer-se. Não fez outra coisa senão VIVER, intensamente. O que ocorreu com ele vocês terão de assistir a obra para saber. Mas, certamente, uma pessoa como estas não chegará ao fim da existência arrependida por ''não ter feito'' isto ou aquilo. Instrumentos escapistas como álcool e drogas não seriam tão populares se, ao invés de fugirmos de uma realidade desagradável, buscássemos, ao invés do mundo exterior, descobrir um mundo que não perde em nada em comparação ao espaço sideral: o mundo interior. Estamos todos devendo algo neste sentido, é algo que salta aos olhos. Macacos poluidores de rios, mares e do mundo em geral, guerreiros, inventores de mil e um aparelhinhos eletrônicos de gosto e uso duvidoso, continuamos, neste início de século XXI, desconhecidos de nós mesmos. E não há nenhuma ''ação'' que possa mitigar esta falta. Talvez, isto sim, um pouco menos de ''ação''- já descrita por uma escritora como ''simplesmente pegar as coisas de um lado da mesa e transferí-las para o outro lado da mesa'' - e um pouco mais de silêncio e paz interior. Quem sabe? Nada temos a perder nesta altura da existência, e o ''point of no return'' da natureza se aproxima...

Sabedoria Popular

Antes eu costumava contestar a sabedoria popular, segundo a qual ''os políticos não prestam''. Eu replicava, ''exceto os do Partido x''. O partido ''x'' chegou ao poder, e revelou-se tão ou mais corrupto que os demais. Razão pela qual considero, a esta altura, que realmente o ditado popular não comporta exceções- salvo aquelas notórias e ultra-minoritárias, como Gabeira...

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Ainda ''Na natureza selvagem''

Há uma cena muito interessante no filme, em que o personagem principal vai a um órgão público e descobre que, para descer as corredeiras de um rio, há uma FILA DE INSCRIÇÕES. E que, segundo a ordem da fila, ele só poderia descer o rio em...12 ANOS!!! Não é só no Brasil que estas coisas acontecem...A atitude que ele tomou vocês podem conferir no filme...

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Natureza Selvagem-continuação

Nós nos encontramos de tal modo perdidos e ''desamparados'' neste mundo, que basta uma única pessoa com um ideal forte- que sabe o que quer- para que nós a consideremos um líder, um fora-de-série. Daí toda a polêmica sobre a suposta ''divindade'' de Jesus. Porque alguém teria de ser ''superior'' para fazer o que ele fez, né? E, separando o ''divino perfeito'' do ''humano inferior'', conseguiram fechar a porta que ele abriu para que outros pudessem repetir ou superar os seus feitos. Daí por diante, necessitaríamos novamente de ''intermediários'' entre os deuses e o homem.Missão cumprida. Mas de vez em quando aparecem seres humanos especiais, que não se enquadram nas regras do rebanho. ''Na natureza selvagem'' trata de um destes seres. Não vamos tirar a surpresa sobre o seu final, porque isto, na verdade, nem interessa. Não interessa o que ele atingiu, nem o que descobriu. O que interessa de fato é o caminho que ele percorreu, as escolhas que fez. Na estória, os únicos que não enxergaram a sua força foram os seus pais. Todos os demais sabiam estar tratando com um ser forte, excepcional- mascarado pelas feições de um adolescente. E toda a comoção que ele provoca nos espectadores do filme é causada pelo choque que podemos visualizar entre os nossos sonhos e o que fizemos de nossas ''vidas''. Ali está alguém que VIVEU de verdade, que ousou sair atrás dos seus sonhos, que pagou o preço desta busca. Isto choca. Comove. Surpreende. Saímos outros deste filme como se, por breves instantes, pudéssemos novamente avaliar o caminho que escolhemos, e nos víssemos diante de uma ALTERNATIVA. A auto-reflexão não é costume dos seres deste mundo, muito mais preocupados em ''fazer'' coisas. ''Na natureza selvagem'' é um filme que faz PENSAR. E PENSAR DÓI...

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Na natureza selvagem

Aproveitando o fato de que este blog deveria ser TAMBÉM um diário, eis um relato das minhas atividades no domingão: acordei. Postei uma mensagem no blog, por cerca de uma hora e meia. Estudei até perto de meio-dia. Saí para almoçar, em Higienópolis, só. Meia-hora de caminhada. Almoço com bufê de saladas e pizza. Sorvete de sobremesa. Quando ia voltar rumo à Paulista, constato que está chovendo forte, Pego um táxi. Desço em casa, para pegar um guarda-chuva.A chuva não passa, e faz até um pouco de frio. As ruas parecem córregos. Corro para o Conjunto Nacional, aqui perto, para assistir este belo filme- que dá título a esta postagem. É a estória de um garoto que sonha trocar a ''civilização'' pelo Alaska. Muitos tentam dissuadí-lo, ele chega inclusive a conhecer uma tremenda gatinha de apenas 16 anos- que se oferece a ele na ausência dos pais- mas continua com a idéia fixa. Este é um filme não sobre um objetivo, mas sim sobre o valor da jornada. Emociona. O garoto não perde um ar meio infantil, que aproxima todo mundo: jovens, velhos, hippies. O filme trata da VIDA, com letras maiúsculas. Não uma vida qualquer, como a de milhões, frustrada na raiz, impotente, sem rumos, triste. Mas uma vida integral. O personagem deixa pais, uma carreira promissora nos estudos, rasga dinheiro para, como César, ''queimar todas as pontes" que pudessem possibilitar um recuo em seu projeto. Apesar de jovem, é meio ''anacrônico'' para a época. Ele LÊ, cita Jack London, Thoreau e muitos mais. Isto nos lembra que houve um tempo em que os livros mudavam a vida de muitas pessoas, serviam como GUIAS. Nestes tempos, muito diferentes dos de hoje, as pessoas não se contentavam com a mera leitura. Viam nestes livros um roteiro, um projeto para uma vida nova. ELAS ERAM MOVIDAS POR IDÉIAS, TESES. O personagem principal deste filme é mais um destas pessoas ''de antigamente''. Ele quer conhecer a vida REAL, verdadeira, direta, sem intermediários, e vai atrás. ''Paga o preço'' na luta pelos seus sonhos. Se isto já era difícil no século passado, que dirá nestes céticos dias de hoje? De 1 a 5, dou NOTA MÁXIMA a esta bela obra de mais de 2 horas. Além da estória, interessante e baseada em um caso real, as paisagens são de arrepiar.Com cenas em desertos e no frio do Alaska. Finalmente, para concluir, parece que temos uma boa safra de filmes no mercado, como este, ''Sangue Negro'' e ''Desejo e Reparação''. Eles sabem fazer uma obra de verdade, quando querem...

Pequeno GRANDE livro- II

Como vocês puderam ver, chegou um momento em que eu cansei de digitar TUDO o que havia de importante no livro ''Conversas com Kafka'', atividade que me custou umas DUAS horas pela manhã de sábado. Tomei fôlego, e aqui estou novamente com mais alguns trechos interessantes. ESPERO concluir esta atividade hoje. Ela é muito mais penosa do que a simples leitura do livro, que reputo como o MELHOR já lido neste ano de 2008...IRONIA: (...)É possível que eu dê assim às coisas uma certa claridade, como fazem os iluminadores sobre um palco mergulhado na penumbra. Mas não é nada disso: na realidade na realidade o palco não está mergulhado na penumbra, está inundado pela claridade do dia. É o que faz com que os homens fechem os olhos e vejam tão pouco. -Entre a realidade e a visão que temos dela existe freqüentemente uma distância dolorosa- observei. Kafka aprovou com um sinal e disse: - Tudo é combate, luta. Só merece o amor e a vida aquele que deve conquistá-los todos os dias. Fez uma curta pausa, depois acrescentou a meia voz, com um sorriso irônico: - Dizia Goethe." SOBRE A ÍNDIA: ''- Os textos sagrados da Índia me atraem e repugnam ao mesmo tempo. Como um veneno, têm algo de sedutor e assustador. Todos esses iogues e mágicos se tornam senhores da vida, em sua contingência natural, não por um ardente amor à liberdade, mas por ódio, não expresso mas glacial, da vida. A fonte dos exercícios religiosos da Índia é um pessimismo infinito'' (p.98). SOBRE OS ANARQUISTAS: '' - Não leva a sério os anarquistas tchecos? Kafka sorriu embaraçado. - É complicado. Esses indivíduos que se intitulam anarquistas são tão gentis e tão amáveis que não se pode acreditar em tudo o que dizem. Mas, ao mesmo tempo e justamente por causa dessas mesmas qualidades, não se pode acreditar que possam ser realmente esses destruidores que pretendem ser. - Conhece-os, então, pessoalmente? - Um pouco. São pessoas muito gentis e divertidas''. ( p.99) SOBRE LEITURAS, no caso a do livro "A Cortina Negra, romance das palavras e dos acasos", de Döblin: - Os acasos só existem em nossa cabeça, em nossas percepções limitadas. Eles são os reflexos dos limites de nosso conhecimento. A luta contra o acaso é sempre uma luta contra nós mesmos, e nunca podemos ganhá-la inteiramente. Ora, esse livro não diz nada disso. - Está então decepcionado com Döblin? - Na realidade, só estou decepcionado comigo mesmo. Esperava algo de diferente do que, talvez, ele queria dar. Mas a obstinação dessa espera me cegou de tal maneira que pulei as linhas, as páginas e finalmente o livro inteiro. Não posso então dizer nada desse livro. Sou um péssimo leitor" ( p.106/107). SOBRE A POESIA: ''Falávamos de Baudelaire. - A poesia é doença-disse Kafka. - Mas fazer baixar a febre não basta para recuperar a saúde. Ao contrário! O fogo purifica e ilumina'' ( p.109). SOBRE A HUMANIDADE: ''- A maioria dos homens não é ruim, disse Franz Kafka enquanto falávamos do livro de Leonhard Frank, O homem é bom. - Os homens tornam-se maus e culpados porque falam e agem sem imaginar o efeito que terão suas palavras e seus atos. São sonâmbulos, não patifes." ( p.112/113). SOBRE A DESORDEM: ''- Se me queixo da desordem do escritório e, de maneira geral, da desordem que me cerca , é um truque para tentar dissimular a inconsistência de minha vida aos olhares inquisidores do mundo que me cerca. Na realidade, só vivo graças a essa desordem: ela me permite extrair o pouco de liberdade pessoal que me resta." ( p.117) DESTINO X ESCOLHA: ''(...)Mas a raiz de todo erro humano é assim, escolher, em detrimento do valor moral que parece difícil de atingir, o não-valor cuja proximidade é sedutora. - Talvez o homem não possa agir de outra maneira, observei. Kafka sacudiu vigorosamente a cabeça. - Não. O homem pode agir de outra maneira. A queda é a prova de sua liberdade." (p.125/126) O DEUS DOS ALEMÃES: (...)''- Como?- Eu estava perplexo. - Os alemães não são um povo teocrático. Não têm nem Deus nacional nem templo especial. - É o que geralmente se admite, mas a realidade é bem outra- disse Kafka. - Os alemães têm o Deus que faz crescer o ferro. Seu templo é o estado-maior prussiano. Começamos a rir, mas Kafka afirmou que falava seriamente e só ria porque eu mesmo ria. Era um riso contagioso." (p.129) SOBRE SEU TRABALHO NO ESCRITÓRIO: (...)"O que me falta é um trabalho digno desse nome. - Como?- repliquei, um pouco desnorteado. - O senhor tem seu cargo no Instituto de Seguros, onde é muito estimado...Mas o Doutor Kafka interrompeu-me: - Não chamo isso de trabalhar, mas de apodrecer. Toda vida verdadeiramente ativa, direcionada para um objetivo, preenchendo verdadeiramente um ser, tem o ímpeto e o brilho de uma chama. Mas eu, o que faço? Fico lá, naquele escritório. Ele não passa de uma fábrica de fumaça fedorenta, sem nenhum sentimento de felicidade. Por isso minto tranqüilamente às pessoas que me perguntam como vou, em vez de simplesmente dar as costas em silêncio como o condenado que sou de fato." (p.145/146) SOBRE A IMPRENSA: ''- A verdade faz parte do pequeno grupo de coisas realmente grandes e preciosas na vida: não podemos comprá-las. O homem a recebe como um presente, como recebe o amor ou a beleza. Ora, os jornais são uma mercadoria, então se faz comércio. - A imprensa serve então para atoleimar a humanidade, observei timidamente. Franz Kafka começou a rir, projetando o queixo com um ar triunfante. - Nao, não! Tudo serve á verdade, mesmo a mentira. As sombras não eclipsam o sol"(...)Disse-me um dia: - Quando se diz em alemão que alguém está enfiado em seu jornal, esta expressão explica perfeitamente a realidade. O jornal apresenta os acontecimentos do mundo justapondo-os como um amontoado de pedras e um amontoado de sujeira. É uma mistura de terra e de areia. Onde está o seu significado? Ver a história como um amontoado de acontecimentos não quer dizer nada. Tudo depende do significado dos acontecimentos, e não o encontramos no jornal, encontramo-lo unicamente na fé, na objetivação do que parece fortuito(...)O Dr. Kafka disse-me um dia- não sei mais em que ocasião- que a leitura dos jornais era um vício ligado à civilização. - É como acontece com o fumo: somos obrigados a pagar aos nossos opressores para termos o direito de nos intoxicar." (p.149/150). ESTADO X POESIA: ''Falamos das 'Leis' ideais de Platão, que eu lia na edição Eugen Diedericks. Eu achava grave que Platão excluísse os poetas da cidade. Kafka me disse: - É muito compreensível. Os poetas tentam dar ao homem outros olhos, a fim de mudar a realidade. Por isso são elementos realmente subversivos, porque querem a mudança. O Estado e, com ele, todos os seus devotados servidores só querem uma coisa: durar" (p.164). Àquele(s) que porventura possa(m) ter aguentado chegar até aqui, um abraço.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Pequeno GRANDE livro

Impossível não tratar aqui de uma recente aquisição de livro na Livraria Cultura, que li de uma sentada só. O livro é pequeno- para os meus padrões: ''SÓ'' 228 páginas- mas é daquelas obras que lemos com extrema atenção, sublinhando tudo. Isto porque a obra chama-se ''Conversas com Kafka'', de Gustav Janouch. E Kafka, como podemos verificar na obra, era um frasista genial. Janouch era um jovem aspirante a escritor, que conviveu com Kafka por alguns meses. No prefácio da obra inclusive se informa que tal convivência se deu em alguns limitados lugares- o escritório, passeios pela rua- e que a obra não aborda dois importantes assuntos da vida de Kafka à época: a paixão por Milena Jesenska e a redação da obra ''O Castelo''. Não importa. O pouco de Kafka que foi retratado ali é genial, e serve como excelente amostra. Assim como uma gota de água está para um oceano...À obra, pois, dividida quase sempre por temas ( porém alerto que, tantos foram os trechos destacados, é provável que tenha de voltar ao tema em outras postagens...) : DO PAPEL DO POETA: ''- Você descreve o poeta como um ser de estatura prodigiosa, cujos pés se encontram sobre a terra, enquanto sua cabeça desaparece nas nuvens. É naturalmente uma imagem bem habitual no quadro de representações da pequena burguesia. É uma ilusão, saída dos desejos escondidos e que não tem nada a ver com a realidade. O poeta é na verdade sempre menor e mais fraco que a média da sociedade. Por isso ele sente o peso da existência terrestre muito mais intensa e fortemente que os outros homens. Cantar não passa, para ele pessoalmente, de uma forma de gritar. A arte é para o artista um sofrimento, pelo qual ele se libera para um novo sofrimento. Ele não é um gigante, mas um pássaro mais ou menos multicolorido na gaiola de sua existência'' ( p.15 ). NO ESCRITÓRIO ONDE KAFKA TRABALHAVA: ''(...)Lembro-me que a cada 'Entre!' impertinentemente emitido por aquele colega Kafka tinha um leve sobressalto. Parecia voltar-se para si mesmo e olhava enviesado, com uma desconfiança não-dissimulada, para baixo, como se esperasse de repente receber um golpe. De resto, adotava a mesma atitude quando seu colega se dirigia a ele em tom amável. Via-se que Kafka sofria, a respeito deste Treml, de inibições desagradáveis(...)- Tem medo dele? Kafka deu um sorriso embaraçado e disse: - Um carrasco é sempre suspeito. - Que quer dizer? - Um carrasco, em nossos dias, é um honrado funcionário; o espírito pragmático da função pública assegura-lhe um bom tratamento. Conseqüentemente, por que não haveria um carrasco adormecido em todo funcionário honrado? - Mas os funcionários não matam ninguém! - Oh, sim! E como! - respondeu Kafka abaixando as mãos e batendo-as na mesa. - Eles pegam seres vivos capazes de se transformar e deles fazem matrículas de arquivos, mortos e incapazes da mínima transformação'' (nosso grifo) (páginas 18/19). AINDA NO ESCRITÓRIO, COMENTÁRIO SOBRE O COLEGA TREML: ''Suspirei: - Está bem. O senhor o elogia, mas não gosta dele. Seus elogios só tem por objetivo esconder sua aversão. Kafka piscou os olhos e mordeu o lábio inferior. Completei meus argumentos: - Para o senhor, é alguém de outra espécie. O senhor o vê como um animal estranho em sua jaula. Então o Doutor Kafka me fixou quase desagradavelmente e articulou com uma voz baixa, rouca de tão contida: - Engana-se. Não é Treml, sou eu que estou na jaula. - É compreensível. O escritório...O Doutor Kafka me cortou a palavra: - Não falo somente deste escritório. Falo em geral. - Colocou seu punho direito sobre o peito. - Carrego minhas barras sempre comigo. " (página 20)(...)''Cada um vive atrás das grades que carrega consigo. Eis porque tantos livros hoje falam de animais. Isto exprime a nostalgia de uma vida livre, natural. Mas a vida natural, para os homens, é a vida de homem. Contudo, ninguém vê isto. Ninguém quer ver. A existência humana é demasiadamente penosa, por isto queremos nos livrar dela, ao menos pela imaginação" (pág. 23). JUVENTUDE X VELHICE: ''- Sua novela ( ''O carregador de carvão'', nota)contém tanto sol e bom humor. Há nela tanto amor, embora não se fale nisso. - Não é na novela, mas em seu assunto: a juventude- respondeu gravemente Kafka. - A juventude é que é cheia de sol e amor. A juventude é feliz , porque tem a faculdade de ver a beleza. A perda dessa faculdade marca o começo da triste velhice, da decrepitude, da infelicidade. - A velhice exclui qualquer possibilidade de felicidade? - Não, é a felicidade que exclui a velhice. - Ele inclinou a cabeça sorrindo, como se quisesse escondê-la entre os ombros. - Aquele que conserva a faculdade de ver a beleza não envelhece'' (nosso grifo: página 32). SOBRE A LITERATURA: ''Ficamos quinze dias sem nos ver. Eu lhe enumerava os livros que tinha 'devorado' nesse tempo. Kafka sorriu e disse: - Da vida, pode-se tirar muito facilmente uma série de livros; mas dos livros tira-se pouca, bem pouca vida. - A literatura e assim uma péssima forma de colocar as coisas em conserva- disse eu. Kafka começou a rir, aprovando com a cabeça" (p.35). São tantos os trechos em destaque, que é preciso selecioná-los com ainda mais esmero para não passar o dia em frente à tela do computador. Vejamos: "Quando o Doutor Kafka regressou, contei-lhe o episódio e concluí meu relatório com essas palavras: - Eu deveria ter pegado aquela mulher de jeito e sem moderar minhas palavras. Em vez disso, fiquei mudo. Sou um molenga! Kafka sacudiu a cabeça e disse: - Não fale assim. Você não sabe que energia reside no silêncio. A agressividade não passa de poeira nos olhos, é uma manobra que habitualmente se destina a camuflar, aos olhos do mundo e aos seus próprios olhos, a fraqueza daquele que a ela recorre. A verdadeira prova de energia e constância está em se submeter a ela. Só o fraco perde a paciência e se torna grosseiro. Assim fazendo, perde geralmente toda a dignidade humana" (p.42). As estórias sobre Kafka acabam tornando-se também a estória da fome deste pobre ''taquígrafo''/transcritor, que ainda não tomou- às 8 e pouco da manhã, o seu café neste cinzento dia de sábado...Creio que não darei conta, nesta postagem, de tudo o que vi de bom na obra que transcrevo. Mas, continuando, sobre o uso das palavras: ''Mostrei a carta ao Dr. Kafka, que a empurrou com a ponta dos dedos para a outra extremidade de sua mesa, como um objeto perigoso. E ele disse: - Os insultos tem algo de aterrorizante. Esta carta me faz o mesmo efeito que um braseiro esfumaçado, que nos queima a garganta e os olhos. Todo insulto desmantela a maior invenção do homem: a língua. Aquele que profere um insulto...insulta a alma. É uma tentativa de assassinato, perpetrada contra a Graça. Torna-se disso igualmente culpado aquele que não pesa as palavras com seu peso justo. Pois falar é pesar e delimitar. A palavra é uma escolha entre a morte e a vida. - Que pensa o senhor disso?- perguntei-lhe. - Devo mandar a esse indivíduo uma intimação judicial? Kafka sacudiu a cabeça com energia: - Não! Para quê? Ele não daria a menor importância a uma advertência desse tipo. E mesmo se o fizesse...deixe-o. A ''vaca'' de sua carta cedo ou tarde vai chifrá-lo. Jamais escapamos aos fantasmas que deixamos sair. O mal sempre volta ao seu ponto de partida" ( p.44). Ainda sobre o embate juventude X velhice: ''- Se entendo bem, o senhor é muito cético diante do combate da juventude contra a velhice- observei. Kafka sorriu e respondeu: - Seja eu cético ou não, é um fato que esse combate é só aparente. -Um combate aparente, como é isso? - A velhice é o futuro da juventude, que cedo ou tarde a atingirá, inevitavelmente. Então porque se bater? Para envelhecer mais depressa? '' (p.79). Concluo parcialmente as citações desta bela e apaixonante obra, para poder, enfim, tomar o meu café da manhã. Continuarei fazendo referências ao livro, posteriormente...

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

O Caos, e as lojas de departamento

Embora não tenha necessidade de comprar todas aquelas quinquilharias, eu sinto uma verdadeira compulsão por lojas de departamento. Explico. Claro que gosto de coisas finas e requintadas, pela sua qualidade. Mas faço da busca por coisas em lojas de departamento uma verdadeira diversão. As lojas de departamento não tem vendedores chatos e o seu cada vez mais predominante chavão ''posso ajudar?''. Elas não seguem a ''moda'' oficial e seus padrões: ''agora o chique é usar preto, marrom, rosa, bege, etc.''. As araras são cheias de coisas de todos os tipos e cores, a todo tempo. Infelizmente, em contraponto, as coisas são feitas/copiadas com menos esmero: chamo algumas destas roupas de roupas ''quase''. Elas quase fizeram roupas bonitas, não fosse um pequeno detalhe aqui e ali que estraga tudo... Por isto elas são lojas de departamento, e não marcas famosas! Ao lado das lojas de departamento, outra paixão- em qualquer lugar- é entrar nas Lojas Americanas, esta versão moderna dos antigos Mercados Persa...Tenho vários ítens comprados na véspera de natais, como copos e pratos decorados, etc. E aqueles DVD's todos empilhados e comprados a R$ 9,99 ou R$ 12,99 são demais! A última aquisição foi a versão mais antiga de ''Guerra dos Mundos''- aquela que o Tom Cruise estragou na versão mais atual...Lojas Americanas, me desculpem este pequeno comercial involuntário, tem doces, água mineral, xampoos, tudo que sempre quebra o meu galho onde quer eu esteja...É sempre uma boa pedida. E não só eu acho isto, haja vista o crescente sucesso da marca...No Rio de Janeiro há uma versão local chamada Casa E Vídeo, que vende tudo que a Americanas vende, além de cabides, pratos e copos e outras coisas mais. É chegar ao Rio e procurar a Americanas e a Casa E Vídeo. Não dá para evitar, elas me puxam...Tem gente que gosta de comprar lembrancinhas em feiras. Outros, acumulam lembranças de viagem, do mundo inteiro. Eu sou VICIADO em lojas de departamento como a Renner, C&A e Riachuelo, e, principalmente, Lojas Americanas. A gente sempre entra nestes lugares com uma expectativa, e somos surpreendidos sempre com promoções e novidades que nem sabíamos que existiam...Elas satisfazem a minha necessidade de caos e desordem. E gosto, assim como diversas pessoas fazem com peças compradas em feirinhas de artesanato, de alternar roupas compradas a dedo nestes lugares com outras de ''grife''. E gosto ainda mais de receber elogios pela beleza de peças compradas baratinho nestes lugares, que chegam a rivalizar com as de marca...Claro que as utilizáveis são minoria da minoria, buscadas sistemática e criteriosamente em meio a uma multidão de outras roupas ''quase''...

Leituras- Rilke

(...)"Como eu fosse menino, as pessoas me batiam no rosto, chamando-me covarde. Isto porque eu não sabia ter medo. Desde então, porém, aprendi a temer com o verdadeiro medo, que só cresce quando cresce a força que o concebe. Não temos idéia dessa força, exceto no medo. Pois é tão ininteligível, tão completamente hostil a nós, que nosso cérebro se dilacera no lugar em que nos esforçamos por pensá-lo. E, ainda assim, já algum tempo acredito que é a nossa força, toda a nossa força, que ainda é forte demais para nós. É verdade, não a conhecemos, mas não será exatamente aquilo que é mais nosso o que menos conhecemos? Às vezes penso como terá surgido o céu, e a morte: surgiram porque afastamos de nós o que tínhamos de mais precioso, porque havia tanto que fazer ainda, e porque, com nossas ocupações, este tesouro não estava em segurança junto a nós. Eis que os tempos passaram por cima de tudo isso, e nos habituamos a coisas mais insignificantes. Não reconhecemos nossa posse, e horrorizamo-nos com sua extrema dimensão. É possível?" (...)"Jovem que sentes nascendo em ti algo que te faz tremer, aproveita esta condição: a obscuridade. E se esses que te consideram um nada te contradisserem, e se esses com quem lidas te abandonarem, e te quiserem exterminar por causa dos teus amados pensamentos, que significa esse perigo óbvio, que te concentra em ti, diante da sutil ameaça da glória futura, que te tornará inofensivo porque te disseminará? Não queiras que ninguém fale de ti, nem com desprezo. E quando o tempo passar, e notares que teu nome começa a circular entre as pessoas, não leve este fato a sério mais do que todo o resto que sai de suas bocas. Pensa que teu nome se arruinou, desiste dele, assume outro qualquer um, com que Deus possa chamar por ti à noite. E esconde-o dos demais. Tu, o mais solitário de todos, isolado, encontraram-te tão depressa: e serviram-se de tua glória. Há algum tempo eram contra ti, agora lidam contigo como se fosses um deles. Carregam tuas palavras nas gaiolas da sua presunção, exibindo-as nas praças, e excitam-se todas, no alto da sua segurança. Todas essas tuas terríveis feras(...)". (...)''É ridículo. Estou aqui sentado em meu quartinho, eu, Brigge, que completei 28 anos, e de quem ninguém sabe nada. Estou aqui sentado, e não sou nada. E, contudo, esse nada começa a pensar, e num quinto andar, numa cinzenta tarde parisiense, pensa esses pensamentos: É possível que ainda não tenhamos visto, reconhecido e dito nada verdadeiro e importante? É possível que tenhamos tido milênios para contemplar, refletir e anotar, e deixássemos esses milênios passarem como uma hora de recreio na escola, em que se come pão com manteiga e uma maçã? Sim, é possível. É possível que, apesar do progresso, da cultura, da religião e da sabedoria universais, tenhamos permanecido na superfície da vida? E que mesmo essa superfície- que em si já seria alguma coisa- esteja recoberta de um tecido tão incrivelmente monótono que nos pareça móveis de sala numas férias de verão? Sim, é possível. É possível que toda a história da humanidade tenha sido um mal-entendido? Que o passado seja falso porque sempre falamos em multidões, como numa reunião de muita gente, em vez de falarmos no único, em torno do qual todos se agrupavam porque ele era estrangeiro e morria? Sim, é possível. É possível termos acreditado na necessidade de recuperarmos fatos acontecidos antes de sermos nascidos? É possível que tenhamos de recordar a cada indivíduo que ele nasce dos antepassados, que portanto contém em si todo esse passado, e que nada tem a aprender com outros homens que pretendem possuir um saber melhor ou diferente? Sim, é possível. É possível que todos esses homens conheçam bem um passado que nunca existiu? Que para eles todas as realidades nada sejam; e sua vida transcorra desligada de tudo, como um relógio num quarto vazio? Sim, é possível. É possível que nada se saiba de donzelas que, ainda assim, vivem? É possível que se diga 'as mulheres', 'as crianças', 'os rapazes', sem pressentir ( apesar de toda a cultura, sem pressentir ) que há muito essas palavras não têm mais plural, mas apenas incontáveis singulares? Sim, é possível. É possível existirem pessoas que dizem 'Deus' e pensem que isso é um ser que lhes é comum? Vejam esses dois meninos de escola: um compra uma faca; o vizinho compra outra idêntica no mesmo dia. Depois de uma semana mostram-se mutuamente essas facas, e acontece que só remotamente ainda se parecem- tão diversamente se desenvolvem em mãos diferentes. ( Sim, diz a mãe de um deles, porque vocês precisam gastar tudo logo?). E então: é possível acreditar que se possa ter um Deus sem usá-lo? Sim, é possível. Mas se tudo é possível, ao menos vagamente possível, então, por tudo que há de sagrado no mundo, algo tem de acontecer. O primeiro a ter esse pensamento inquietante precisa começar a fazer algo do que foi omitido; mesmo se for apenas um sujeito qualquer, talvez nem mesmo o mais indicado: simplesmente, não há outro melhor. Esse jovem estrangeiro insignificante, esse Brigge, terá de sentar-se num quinto andar e escrever, dia e noite: sim, terá de escrever, e este será o fim". ( ''Os cadernos de Malte Laurids Brigge'', de Rainer Maria Rilke, Editora Novo Século ).

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Uso peculiar para livros

Sabemos que os livros podem ser utilizados para os mais diversos propósitos. Mas a estória a seguir mostra uma espécie inusitada de uso : o russo Bakhtin, "não podemos esquecer, foi aquele que fumou um de seus próprios livros(...)Em algum lugar da Rússia durante a Segunda Guerra, depois que uma bomba destruiu a editora que publicava seus livros, Bakhtin viu-se privado de papéis de cigarro- mas não de tabaco. Temos de imaginar a cena: lá estava o tabaco, mas não havia meios de fumá-lo; lá estava o manuscrito, mas não havia meios óbvios de publicá-lo. O que VOCÊ teria feito numa situação destas?" ( Fonte: ''Cromofobia'', de David Bachelor, p.124, Ed. Senac ).

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Coincidências??!

Coincidências, para quem acredita. Eu só acredito que somos buscados por uma coisa: por livros. Defendo a tese que não somos nós que escolhemos determinados livros. Eles é que nos buscam, buscam o seu leitor ideal- quem os aceite e compreenda. Por isto, quando entro em um Templo do Saber- leia-se Livraria- a primeira pergunta que faço é: - ''Qual livro aqui pode ser útil para mim?" Funciona...De resto, somos a soma de nossas obsessões. Não é a ''vida que nos leva'', como se fosse uma entidade divina, enigmática. Somos os construtores de nossas vidas, reforçando ou não algum fato em razão de nossas atrações e repulsas. Tudo isto para contar que hoje, quando saí de casa com destino a Higienópolis, para almoçar em um restaurante natural, ''um livro me buscou''. Explico. Quando estava atravessando uma passarela subterrânea que fica sob a rua da Consolação, deparei-me com um sebo. Um sebo que já havia visto dezenas de outras vezes, e que ocupa toda a passarela subterrãnea- coisas de Sampa. O sebo é grande, com diversas estantes. E, ao olhar para uma pilha de livros em uma estante, meus olhos foram puxados, atraídos violentamente pelo título de um livro de um escritor favorito do qual já li diversas obras, exceto esta: ''Uma noite em Curitiba'', de Cristovão Tezza. Tezza é catarinense, radicado na bela capital paranaense há muitos anos. Como apreciador daquela cidade, já adquiri diversos de seus livros, que tem Curitiba como pano de fundo. Detalhe deste livro: estava na pilha de promoções por UM REAL!!! Rebobinando: eu decido sair um dia, e tomo uma direção- como poderia escolher ''n'' outras. Passo por um sebo, que eu conhecia mas onde ainda não havia comprado um livro. Dentre todas as prateleiras daquele sebo, eu olho para uma específica. Naquela há o livro de um escritor de quem eu gosto, e de quem eu tenho diversas obras. Mas aquela eu não tinha. E ela tinha o título ''Curitiba'' na capa, o que certamente deve ter atraído a minha atenção. E estava na pilha de promoções a UM REAL...Será acaso? ''Coincidência?" Nós somos conduzidos pelas nossas paixões. Certamente se fosse um livro sobre Cuiabá, com todo respeito àquela cidade, eu não teria perdido sequer um segundo ali. TINHA de ser sobre Curitiba. Eu ali, passando por acaso, um livro sobre aquela bela cidade, onde já estive inúmeras vezes, com ótimas recordações- temas de futuros blogs-o livro me puxou, e aqui estou eu relatando todo este fato. Para mim muito significativo. GANHEI O DIA, não só pela economia que fiz- que fique claro...Um livro, seu apreciador em potencial,um encontro bibliófilo amoroso, mais uma ''conquista'' para minha biblioteca particular. E que conquista...!

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Ações Calculadas

No dia de meu aniversário, estava passeando pelo Conjunto Nacional de Brasília com uma tia. Propus que entrássemos em uma loja Riachuelo. Subitamente, quando entramos na loja, e ao ver que eu me interessara por uma camisa, ela propôs comprar a mesma como presente de aniversário. E aí, um passeio desinteressado passou a ter uma ''finalidade''. A proposta me assustou, e eu não escolhi a camisa que chamou a minha atenção. Propus que olhássemos mais lojas, á procura do presente ''ideal''. Claro que, a partir do momento da proposta, a idéia perdera a sua graça. E eu acabei não escolhendo nada, para a sua decepção. Do mesmo modo, a menor alusão a uma possível publicação dos textos deste blog em um livro me apavora. É gostoso pensar no blog quando tenho alguma idéia. E´gostoso acessar o blog, e escrever dois ou três textos, tendo em mente pessoas conhecidas que possam se interessar por alguma coisa. Mas é de APAVORAR a idéia de começar a medir e calcular o que digo, em razão de uma virtual ''platéia''. O que seria espontâneo vira calculado, e perde a graça, o tom, a leveza. É terrível a função daqueles que vivem de escrever, e dependem do gosto instável da patuléia. É horrível a intenção impossível de que tudo aquilo que escrevamos faça sentido, e agrade sequer a uma pessoa. Pensar que possa haver alguém além de 2 ou 3 amigos lendo isto aqui, é espantoso. Será que sequer este texto faz sentido? O que dirá um monte deles? E porque faria sentido a alguém que não conheço: que misterioso ser faria a conexão entre realidades tão díspares? Tudo que é obrigatório é chato, até o sexo. Ações calculadas tiram o charme dos flertes e, infelizmente, no amor de hoje tudo é precisamente calculado. Enquanto isto, o prazer de digitar algumas letras na tecla de um computador dificilmente se comparará ao prazer que tenho ao ler algum texto escrito por outrem. Sequer imaginei que chegaria até aqui, ou que passaria de 10 pequenas mensagens escritas em um blog. O excesso atribua-se à minha evidente prolixidade e megalomania...

Inferno Astral

Para completar a angústia que antecedeu o aniversário, vários resultados negativos no plano futebolístico: torci para o Fluminense contra o Botafogo, e deu Botafogo. Torci para o Vasco, embora sem muita ênfase, contra o Flamengo. E deu Flamengo. E, de quebra, o São Paulo ainda perdeu para o Marília(?!!!). Do ponto de vista futebolístico, como podem ver, este aniversário foi um desastre. Felizmente a vida é um pouco mais do que o futebol, embora, como todos podem constatar, o futebol sirva perfeitamente para explicar a vida e o mundo...

Aniversário

Por incrível que pareça, ao completar 40 anos não me dei conta da importância do fato- que, na minha infância, era uma data ''decisiva'', na qual eu já teria feito ''n'' coisas, do tipo que as pessoas em geral já realizaram quando chegam a esta idade( casar, ter filhos, ter uma profissão definida, uma cidade definida e escolhida ). Em suma, ''a ficha não caiu''. Só agora, com inacreditáveis 43 anos, parece que todo o peso do acontecimento caiu de vez sobre os meus enfraquecidos ombros: ESTOU VELHO! Não que alguns sinais tenham aparecido somente agora. Na verdade, eles foram se acumulando ao longo dos anos, e um bom observador teria registrado rapidamente o óbvio: a memória cada vez mais falha- recentemente levei longos 5 minutos para lembrar o nome da bela atriz Carolina Dickman- os quilos extras acumulados nos bons restaurantes de São Paulo e cada vez mais difíceis de eliminar, cada vez mais cabelos brancos, uma barriguinha cada vez mais visível, cansaço na hora de subir escadas e ladeiras, um cansaço geral pela existência e pensamentos cada vez mais freqüentes sobre a estupidez e a irreverência dos ''jovens''. É, eu estou definitivamente do ''lado de lá''. Bons os tempos em que eu via com esperança o título de um livro de Artur José Poerner chamado ''O Poder Jovem''. O dia em que os rebeldes do mundo inteiro, a geração pós-68, a minha geração, tomaria o poder para realizar as mudanças nesta ''Era de Aquário''. ''É proibido proibir'', um lema que calou bem fundo naquela época. Hoje estamos todos dispersos, desiludidos, o ''nosso governo''- o governo em que depositávamos todas as esperanças, um governo constituído por diversos membros desta geração de transformadores- enfim, a ''última esperança'' dos 68 da vida pereceu, e já foi tarde. Alguém já disse que ''o Brasil é um túmulo de esperanças''. De fato, mais do que lutar e sonhar por utópicas e sempre adiadas transformações, o cenário atual mais se assemelha ao de uma guerra. E, como sabemos, o mais importante durante uma guerra é sobreviver. A melhor estratégia é a defesa. Defesa, em primeiro lugar, da nossa integridade física e intelectual, ameaçada por todos os lados. O Brasil de hoje não é mais para amadores e ''pollyanas'' e viver, como sabemos os paulistanos, é saber cada vez mais tolerar um universo de pessoas igualmente na defensiva, mal-humoradas, mal-educadas. Viver com o outro, e aparentar ignorar o outro, é este modo de vida típico dos grandes centros que predomina cada vez mais nos nossos tempos hiper-modernos. E neste aniversário, por incrível que pareça, é isto o que mais desejo, e é neste cenário- embora cada vez mais alquebrado fisicamente- que me sinto cada vez mais inserido, ''como um pato na lagoa''. Bom dia a todos!

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Exército de Brancaleone

Um pequeno ''tour'' pelo blogspot, e constato que todos os blogs mais próximos estão milhares de anos luz mais avançados do que este modesto blog. Alguns tem apenas fotos, tiradas com um celular ou uma câmera digital último tipo. E detalhe mais cruel: eles estão EM INGLÊS, provavelmente sendo lidos ou com grandes possibilidades de sê-lo pelo maior mercado blogueiro do mundo. Não que este escriba adestrado não tenha condições de compreender textos escritos em inglês. Até arranho uns ''I love you'' em caso de necessidade. Mas escrever em inglês não dá, pelo menos por enquanto. Em uma prova do Itamarati os erros em Inglês foram tão numerosos, ao menos para os padrões daquela valiosa instituição, que eu quase fiquei com nota negativa. Imaginem: devendo nota para o Instituto Rio Branco! Mas o assunto aqui é outro: eu ainda acredito em palavras, em um mundo cada vez mais visual. Os outros blogs estãol suprindo esta necessidade. Eu não. Outra batalha perdida? Desta vez eu faço questão de estar no lado ''perdedor''. A outra opção chama-se ''Big Brother'' e, como disse um de seus distintos integrantes: ''Deus me livre de ler livros''. Eles sabem para que lado caminha a humanidade...

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Surpresa na Metrópole

Acredite se quiser: hoje eu vi um fusca circulando pelas ruas dos Jardins. Um fusca como aquele do filme ''Se meu fusca falasse'', modelo antigo, três faixas pintadas sobre o capô. O simpático carrinho do filme tinha até nome, ''Herbie''. Nós ficamos nos perguntando sobre o motivo deste carro estar circulando aqui, naquela hora. Seria alguma gravação de comercial? Seria algum fanático por Fuscas, que mandou pintar seu carro igual àquele do filme célebre? Simpática esta mania de personalizar os carros. Quem sabe isto pode contribuir para humanizar um pouco estas abomináveis, poluentes e ruidosas criaturas que, por aqui, parecem ocupar todos os espaços- inclusive o das faixas de pedestres...

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Notas sobre o nada

Uma série de TV norte-americana, Seinfeld, se definia como uma série ''sobre o nada''. -Qual o tema de vocês? - Olha, nós falamos sobre coisa alguma. Trata-se de uma boa tirada. Já tivemos chance de discutir aqui sobre o ''valor'' da literatura/escrita. Na verdade, em meio a um mundo de coisas ''reais'', ''concretas'', ''relevantes'', ''importantes'', escritores preferem- sempre preferiram- escrever sobre coisa alguma. Ao menos coisa alguma que parecesse estar dotada de algum dos adjetivos antes elencados. Em meio a um mundo de pessoas ''práticas'', ''ocupadas'', os escritores sempre pareceram estar fazendo nada. Claro que há uma tolerância quanto a este nada, porque a muitos a escrita parece ''misteriosa'', ''inteligente''. Na verdade, não há mérito algum em escrever. Nós simplesmente botamos para fora tudo o que ingerimos até hoje. E é algo tão físico, tão irresistível, tão compulsivo quanto vomitar ou excretar algo( muitos escritos até se assemelham ainda mais a estas atividades, a ponto de se tornar quase impossível distingüir uma atividade da outra ). O que você ingere, você expele. Se você ''devora'' o New York Times ou o ''Estadão'' de domingo, dentro de alguns anos sentirá uma leve tentação de fazer algo do gênero. Mas não se sente culpado de ''plágio'' ou algo semelhante, porque, a esta altura, as informações já estarão tão consolidadas em seu cérebro que, a seu modo de ver, o seu estilo parecerá ''original''. Esta é a versão otimista da coisa. A pessimista parte de uma pergunta: como botar para fora algo que se assemelhe a um texto escrito se você não lê? Sabemos que os jornais tem circulações cada vez menores, bem como a tiragem da maior parte dos livros. E estes são os principais ''combustíveis'', as principais fontes dos futuros jornalistas/escritores/blogueiros. Você bota gasolina, o seu carro anda. Você devora palavras, as palavras ficam remoendo dentro de você- à espera de serem expelidas de múltiplas formas, em um reconhecimento implícito de que você admira as figuras que as escreveram, e pretende espelhar-se nelas. Porém, o imediatismo do mundo moderno se opõe à idéia de trabalhar longamente uma idéia, um tema. Todos querem escrever, manifestar-se, e isto não deixa de ser bom. O ruim é a falta de credibilidade de algumas das fontes novas de informação. Ainda prefiro os ''jornalões'', na falta de coisa melhor.A minha visão particular é a de que eu já tive tempo de descobrir que não ''sirvo'' para coisa alguma, eu não sou bom em coisa alguma ( ao contrário do tempo em que achava que era, potencialmente, um ''talento'' a ser descoberto- ''está lento''; do tempo em que achava que eu dominava tudo sobre relacionamentos- e os ''outros'' é que não sabiam viver; do tempo em que eu achava que os ''outros'' é que não sabiam educar os seus filhos, e eu seria, futuramente, o melhor pai do mundo ). O tempo passou, as nossas pretensões também, os fracassos e desilusões se avolumaram, e, ''súbito'', percebo que, na verdade, a ÚNICA coisa que eu sei fazer, e ainda assim mais ou menos, é colocar algumas palavras em seqüência em uma folha de papel ( êpa! até nisto estou defasado: em uma página de computador...). Vencendo ou tentando vencer a minha eterna tendência a ''pregar'' idéias, para fazer desta página pessoal um espaço para expor- aos outros, se existirem, e a mim mesmo- uma parte oculta muito especial, uma forma própria de enxergar o mundo e a ''realidade'' que só eu posso fazer. Em suma, NADA. O que eu faço é nada, e estas são as minhas notas sobre o nada...

Intuições?

Esta coluna não pretende se juntar ao espírito cético dominante na atualidade, em especial nos meios considerados mais ''inteligentes''. Mesmo porque consideramos que os denominados mundos ''material'' e ''espiritual'' estão mais misturados do que imagina a nossa vã consciência. Este episódio que vou narrar ocorreu no dia da minha última viagem a Curitiba, em janeiro, já descrita em outros textos do Blog: no dia da viagem, de ônibus, às 9 da manhã, eu estava sonhando. E, neste sonho, eu estava PERDENDO UMA VIAGEM, POR ATRASO. Este sonho me assustou, eu acordei, e vi que estava atrasado para a minha viagem, a REAL...Já passava das 7 da manhã, e era preciso correr para estar na Rodoviária ás 9. O interessante foi que justamente o atraso que eu tive foi que me possibilitou estar em casa ainda às 8 da manhã, quando soube, pelo noticiário local, que o metrô- meu meio de transporte escolhido- tinha sofrido uma pane. Eu raciocinei que as panes do metrô tem efeitos prolongados, não se limitando a um determinado trecho. A coisa funciona meio como uma ''bola de neve'': um atraso aqui vai afetando toda a linha. Resultado: mudei os planos( graças ao atraso, que só não foi maior por causa de um ''sonho'' me alertando que eu poderia perder a viagem...!)e decidi ir de táxi, chegando na Rodoviária em cerca de 15 minutos. O mais interessante nisto tudo é que a vida inteira da gente é repleta de tais ''coincidências'', que consideramos como tais na ingenuidade de querermos achar que estamos ''sós'' e ''desamparados'' neste planeta tão ''inóspito'' e ''cruel''...Por que algumas pessoas deixam de embarcar em vôos que sofrem acidentes fatais? Será mera ''coincidência''? Respondam os arautos da ciência oficial...

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Leituras

Não é o propósito deste Blog fazer citações muito extensas, mesmo porque é muito trabalhoso ficar segurando livros no colo enquanto digito. E também porque o propósito do Blog é ser um canal de expressão da minha escrita, e não da dos outros. Mas há leituras que fazemos que são especiais, significativas a ponto de, como neste caso, abrirmos mão da nossa própria voz para dar lugar á voz de outrem, porque esta é muito relevante. As citações abaixo, que falam por si só, são do livro ''À maneira de Sócrates'', de Ronald Gross: - Do discurso final de Sócrates: ''Eu sou a mosca enviada pelos deuses para picar vocês, atenienses. Nosso Estado, meus amigos, é como um imenso corcel- forte e impressionante, mas preguiçoso e obtuso. Sem a constante provocação das moscas, haveria de tornar-se ainda mais inconsciente e inapto. Ao longo dos últimos trinta anos, não tenho poupado ninguém nem coisa alguma, inclusive a mim próprio. Dediquei toda a minha vida a prestar este serviço a minha cidade. Deixei de lado as coisas que a maioria dos homens considera importantes, como a riqueza, o poder militar, os cargos políticos. Enquanto viver, nunca deixarei de mostrar como são realmente as coisas em Atenas. Meu princípio tem sido invariavelmente o de que revelar a verdade não pode ser prejudicial. Acredito que falar a verdade só pode prejudicar o que é falso entre os trabalhadores, os empresários, os sofistas, os estadistas e os deuses. O ar que se respira em uma democracia só é saudável quando toda proposta e todo projeto está constantemente sendo submetido á investigação, mesmo nas próprias bases de nossa maneira de viver". A necessidade que todo grupo, toda sociedade tem de ter as suas ''moscas'' foi bem exemplificada pela escritora Marian Wright Edelman, em seu livro ''A medida de nosso sucesso'': - ''Não fique imaginando que você precisa fazer muito barulho para contribuir de alguma maneira. Meu modelo pessoal, Sojourney Truth( verdade, em inglês), uma mulher escrava, não sabia ler nem escrever, mas tampouco era capaz de tolerar a escravidão e o tratamento das mulheres como cidadãs de segunda classe. Certa vez, quando fazia um discurso contra a escravidão, ela foi interpelada por um velho. ''Minha senhora. Está pensando que a sua conversa sobre escravidão serve para alguma coisa? Seu discurso é tão importante para mim quanto a mordida de uma pulga''. ''Pode ser, devolveu Sojourney Truth, mas se Deus quiser vou fazer com que o senhor não pare de se coçar''. A citação seguinte é do filósofo Alain de Botton, que conta como teve sua revelação em um dia muito frio de inverno, quando percorria uma galeria deserta do Museu Metropolitano de Arte, de Nova York. Estava em frente do quadro ''A morte de Sócrates'', de Jacques-Louis David: ''Se a pintura me causou tão forte efeito, foi talvez porque o comportamento de que dava conta contrastava tanto com o meu. Em qualquer conversa, minha prioridade era sempre ser apreciado, e não dizer a verdade. O desejo de agradar me fazia rir de piadas nem tão engraçadas, como um pai de aluno na noite de estréia de uma peça da escola. Com estranhos, eu assumia a atitude servil de um porteiro diante de clientes ricos de um hotel- um entusiasmo daqueles de fazer salivar, provocado por um desejo mórbido e indiscriminado de afeto. Eu não duvidava em público de idéias abraçadas pela maioria(...)Mas Sócrates não se dobrara diante da impopularidade(...)Ele não renegara suas idéias porque os outros estavam insatisfeitos(...)Semelhante independência de espírito foi para mim uma revelação e um estímulo. Era algo que podia servir de contrapeso à tendência indolente para seguir práticas e idéias socialmente aceitas''.Em seguida, o autor do livro sobre Sócrates que estamos mencionando cita um chamado ''Projeto Girafa'', cujo lema é ''Estique o pescoço para fora''. E dá dois bons exemplos de pessoas que seguiram este conselho, custasse o que custasse: ''O veterano inspetor William Lehman, da USDA, que já chegou a impedir a entrada de 80% da carne canadense que chega a seu posto de inspeção alfandegária na fronteira, por cheirar mal e conter fragmentos de ossos, fragmentos metálicos, coágulos sangüíneos, pus e abscessos. Pressionado pela USDA a deixar passar mais carregamentos canadenses, ele fez pé firme em nome da verdade. Mesmo ameaçado fisicamente, caluniado por funcionários canadenses e punido em seu departamento, ele não só persistiu como ''dobrou a aposta'', pressionando por uma auditoria por parte da GAO e falando aos meios de comunicação''. Buscar a verdade, custe o que custar. Investigar a fundo sobre esta verdade, questionar-se, questionar verdades estabelecidas. O método socrático ainda hoje cala fundo em todas as pessoas que procuram pensar e agir com qualidade. O livro de Ronald Gross é excelente, e pode ser lido de uma só vez- bem como devorado aos poucos, como se faz com as melhores iguarias...

Obama, uma ressalva

O que mais nos incomoda na chamada ''Onda Obama'' é que as pessoas não conhecem as suas propostas. Simpatizam com ele PELO QUE ELE É- descendente de negros. E já manifestei meu desconforto por esta espécie de racismo às avessas ( imaginem se alguém manifestasse apoio a outro candidato por ele ser branco???!). Agora, a candidatura Obama tem atraído muita gente que normalmente permanece afastada do sistema eleitoral, e este é um fato positivo. Tem sido apoiada por ativistas e jovens progressistas, e este também é um fato muito bom. E agora, descubro que- de todas as propostas em relação ao meio ambiente- a de Obama é uma das mais radicais: ele propõe um corte de 80% nas emissões de carbono, até 2050. Isto é muito bom para o planeta, sem contar a possibilidade de, enfim, os norte-americanos se engajarem nesta luta planetária pela sobrevivência. Um livro recente que li sobre o Aquecimento Global, diz que, apenas para conservarmos o equilíbrio do planeta nos níveis atuais, teremos de cortar as emissões de carbono em 70% até 2050 e que, na melhor das hipóteses, isto possibilitaria que, por volta de 2150, o sistema voltasse ao seu estado normal. O que nos dá uma dimensão da IMPORTÂNCIA deste assunto, uma vez que é a VIDA das futuras gerações que está em jogo. Agora, paradoxalmente, é o aquecimento que bagunça todas as estações, fazendo com que o nosso verão paulistano tenha cara de inverno( para o meu deleite, diga-se de passagem...).

Almoço na Tailândia durante o Carnaval

Esta também é uma mensagem comemorativa, por se tratar do texto número 50. Estamos rompendo uma barreira psicológica. Escrever já se tornou uma necessidade, não importando que seja- aparentemente- para as paredes...O tempo passa rápido, uma nova Mônica está nas páginas da Playboy- Mônica Carvalho- e nós ainda não fechamos as crônicas de Carnaval. Na última terça-feira, último dia de Carnaval na maior parte do Brasil, exceto na Bahia, tínhamos dois restaurantes em mira. Mas, por um destes eventos do acaso, e logo na cidade que não para, os dois estavam fechados. Motivo suficiente para experimentarmos uma opção que estava há um bom tempo na manga do casaco: um restaurante tailandês...O restaurante tem dois andares, e é semelhante a um templo budista. No térreo um bar, e uma fonte jorrando água com um som semelhante ao da chuva ( BEM forte! ). Fomos recebidos por um sujeito vestido à moda tailandesa, com sotaque estrangeiro. Ele até cumprimenta à moda oriental, baixando a cabeça.Subindo as escadas, chegamos ao salão principal. Junto á comida- a la carte ou bufê- um pequeno lago. Dentro dos banheiros, água jorrando nas paredes, portas de madeira, luz baixa. A sensação é que estamos em outro país. A clientela, quando chegamos, era constituída apenas por orientais, não se sabe se estrangeiros ou nisseis. Depois chegaram mais ocidentais...Já em relação á comida, eles tem uma salada convencional, junto com pequenos bolos e pastéis. No prato principal, versões de todas as carnes- de porco, de vaca, etc.- e peixe. Coloquei um pouco de cada coisa, e o resultado é muito bom.Na sobremesa também se mistura um pouco de cada coisa. Lá dentro o ambiente é tão diferente e exótico que temos impressão de estar chovendo fora, pelo som da fonte do térreo, e de que o dia já morreu. Isto me lembra de que aqui em São Paulo- no Bistrô Charlô- já estão realizando almoços no estilo de um restaurante estrangeiro, em que as pessoas são VENDADAS para que se concentrem apenas nas sensações, e não na parte visual. Também é cada vez mais ver pessoas que se concentram exclusivamente nas entradas- bem diversificadas em diversos locais- e acabam não pedindo o prato principal, indo diretamente para a sobremesa. Preocupação com a silhueta? Gosto pelo exótico? Ou porque as entradas, em si, podem substituir perfeitamente a refeição principal? O fato é que a culinária mundial já não é a mesma, e São Paulo segue de perto todas estas tendências...

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

A ''Onda Obama''

Cada vez mais desconfiamos destes modismos em relação a candidatos a alguma coisa. Houve uma época em que vislumbrava grandes transformações na figura de um índio governando um país ( o primeiro foi o peruano Alejandro Toledo, um fiasco, seguido por este fantoche de Hugo Chávez chamado Evo Morales ), ou de um ''operário'' ( sem comentários! ), ou mesmo de uma mulher ( já temos uma na Alemanha, outra no Chile, e agora uma na Argentina, sem contar no pioneirismo de uma Margaret Thatcher na Inglaterra ). Tudo a nos alertar para a ingenuidade de se pretender fazer mudanças pela escolha de líderes por sua categoria, e não por uma ideologia. As últimas notícias indicam que Barack Obama tem grandes chances de ser escolhido candidato do Partido Democrata nas prévias americanas de amanhã. Sem medo de ser chamado de ignorante, a única coisa que quase todos nós sabemos de Obama é que ele é filho de um negro africano com uma mulher branca. Isto é muito pouco para quaisquer comparações com Martin Luther King ou John Kennedy, como vem fazendo os mais afoitos...Obama, este misterioso ser, é carismático, tem apoio de diversas personalidades da mídia, mas, fisicamente, é um ''janota'', um ''almofadinha''. Há muito mais conexões entre o senador Obama e os brancos de Washington, seus companheiros do Senado Americano, do que com os negros do Harlem...Mas talvez seja justamente esta sua indefinição que mais o favoreça em uma campanha eleitoral: como atacar um negro não-radical que mais parece um branco? Os adversários, caso Obama triunfe no lado democrata- fato que ainda não é certo, vão ter de esmiuçar bastante o seu passado em busca de algum fato que o comprometa. Aliás, a vantagem de Obama, do midiático Obama, parece residir exatamente na ausência de um passado relevante...Agora, caso Barack Obama seja escolhido o candidato democrata, residirá nele a esperança do mundo em por fim aos nefastos anos de governo de George Bush- II, os mais longos 8 anos de toda a estória da Presidência Americana...

Cena Paulistana

Este ''Carnaval'' paulistano é realmente um dos melhores do país, justamente pela possibilidade que temos de ignorar totalmente toda e qualquer notícia carnavalesca- inclusive aquelas que, propositadamente, deletamos de nossas vistas ao folhear os jornais e assistir a programas de TV. Hoje, segunda-feira de ''carnaval'', fomos almoçar em um lugar tipicamente paulistano, a rua Avanhandava. O lugar estava vazio, como raramente costuma ficar. Mesmo o Famiglia Mancini, que é sucesso total de público. No outro lado, ainda estava mais vazio. Sequer a banda de músicos compareceu ( só o pianista foi trabalhar, solo...). 3 ou 4 mesas ocupadas, não dava para deixar de reparar na dupla de velhinhos que estava sentada na nossa frente ( ficamos de lado para a rua, também acompanhando todo o movimento deste dia nublado de ''verão'' ). Os dois conversavam animadamente, quase alheios ao ambiente. Trocavam idéias, falavam de reportagens de jornal, pareciam mais dois professores- como disse um deles- com ''setenta e poucos anos''...Bem diferente destes jovens de hoje em dia, com todo o seu estrelismo e falta de conversa consistente. Os dois são de uma saudosa época em que se trocava idéias ''olhos nos olhos'', com prazer pela conversa. Eles já estavam quando chegamos, e saíram pouco antes da nossa saída. Mas é realmente uma maravilha conversar com os ouvidos ''ligados'' para outro diálogo tão ou mais interessante que o nosso. Em São Paulo as idéias fluem, estão no ar, criadores das mais diversas áreas interagem e se apóiam mutuamente. O espaço ideal para isto ainda é, majoritariamente, o da Academia e dos cafés e livrarias mas, como se viu, mesmo em um restaurante o que não falta é vontade de CONVERSAR de verdade. E de escutar, pois este é o verdadeiro complemento de toda boa conversação. Esquecemos como se escuta, eis a grande mudança dos últimos anos. Todos querem falar, mas poucos se dispõem a ouvir. Todos querem escrever, publicar alguma coisa, mas quantos leitores este país tem de verdade???!

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

É surpreendente a idéia de alguém escrever sobre a Mostra de Cinema de São Paulo 2 meses após o seu encerramento. De fato. Mas hoje de manhã, ao pegar a primeira camiseta para ir fazer a minha caminhada de domingo, peguei a camiseta que comprei na Mostra- com a sua propaganda. E lembrei, de imediato, que não escrevi sequer um artigo sobre a mesma enquanto ela estava ocorrendo. Talvez porque, na hora, não nos damos conta de todo o seu frenesi. Mas, começando, vários dos filmes que assisti, naquela ilusão de estar vendo tudo ''primeiro'', acabaram passando logo depois no circuito comercial. Mesmo assim não me arrependo, e os veria nos mesmos cinemas super-lotados novamente. A lembrança de, pela primeira vez, ver o Cine Bombril do Conjunto Nacional com uma fila quilométrica, para assistir um filme desconhecido argentino...O Conjunto Nacional era a base principal da Mostra, onde compramos o nosso crachá com direito a ver QUALQUER filme entre meio-dia e 6 da tarde. Com direito a foto e tudo. O medo de ver furtado o mesmo crachá, que nos levava a escondê-lo por dentro da camiseta...A corrida entre os cinemas que me levou, em um dia, a ir assistir um filme na Cinemateca da Vila Mariana, indo de metrô, e depois sair antes do final do mesmo filme para pegar o metrô novamente e correr para assistir outro, na região da Paulista...A surpresa por ver, sempre nestas ocasiões- tanto aqui quanto em Brasília, na Academia de Tênis- um público diferente, com o ar metido e posudo de pseudo-intelectuais, que não se vê no cotidiano da metrópole (onde ficam estas pessoas todas entre um Festival e outro? Onde será que elas HIBERNAM??!!!). A surpresa por ver filmes que se esperava terem casa cheia vazios, e outros super-alternativos e anti-comerciais lotados...O último filme, inédito, da Jodie Foster, em que ela faz uma Vigilante, uma Justiceira que, após o assassinato do noivo, sai distribuindo tiros em bandidos em uma Nova Iorque mais parecida com aquela dos anos 70...A alegria de, quase sempre, encontrar ingressos para os filmes que queria, e o trabalho que tive para fazer um organograma com títulos e horários. A decepção que tive tantas vezes por não poder assistir dois filmes bons que estavam passando no mesmo horário...A combinação do Festival com o ritmo frenético da recém-inaugurada Livraria Cultura- a maior do país- no Conjunto Nacional( que, aliás, precisa urgente de um bom café, pois o da Livraria está sempre super-lotado...). Estas são algumas das caóticas lembranças da minha primeira Mostra Internacional de São Paulo, descritas tão tardiamente. A primeira Mostra a gente nunca esquece(acho que já utilizei o mesmo chavão quando me referi ao Atletiba...).